Segunda-feira, 6 de Abril de 2009

Lei do mínimo esforço

Há pouca atividade acadêmica fora das salas de aula das universidades brasileiras. A maioria dos universitários estuda o mínimo em casa, não ultrapassando duas horas por semana, e não se dedica a atividades extraclasse nem à iniciação científica. O quadro, considerado por especialistas preocupante para as áreas de pesquisa e extensão acadêmicas, foi verificado nas repostas de estudantes concluintes ao questionário socioeconômico do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), que mede o rendimento dos alunos dos cursos de graduação.

Entre 2005 e 2007, o Enade avaliou 50 cursos e procurou descobrir como se comportam os estudantes. Em 42 cursos (84% do total) o exame verificou que a maioria dos estudantes se formou sem desenvolver nenhum tipo de atividade acadêmica além daquelas obrigatórias. Com relação à iniciação científica, em 43 cursos (86%) a maioria respondeu que não se envolveu em projeto de pesquisa, por falta de interesse ou de oportunidade.

Nos cursos com baixa participação em atividades de iniciação científica, o relatório do Enade mostra que o “resultado é muito preocupante, tendo em vista que os pilares da educação superior estão baseados no entrelaçamento das atividades de ensino, pesquisa e extensão.” Diante do porcentual elevado de alunos concluintes que declararam não ter participado de nenhuma atividade acadêmica extraclasse, o documento aponta ainda a necessidade de as instituições de ensino superior investirem mais nas atividades de pesquisa, extensão e monitoria. Os dados do Enade de 2006 apontam ainda que 56,6% dos concluintes consideram que o curso deveria ter exigido mais do aluno e 39,5% acham que a exigência foi na medida certa. Somente 3,8% opinaram que ele deveria ser menos exigente.

Horas de estudo
Em 26 cursos, a maioria dos universitários disse se dedicar ao estudos, excetuando as aulas, uma a duas horas por semana – o tempo mínimo entre as opções. Outros 22 declararam ter estudado de três a cinco horas. Somente dois cursos ultrapassam oito horas por semana: Medicina (41,2%) e Arquitetura e Urbanismo (32,3%). “Nosso curso é bem puxado. Todo dia à tarde tenho trabalho para fazer, teórico e maquete. Na semana passada cheguei às 7 horas na faculdade e fiquei até as 22h30 fazendo maquete”, aponta a estudante de Arquitetura Isabelle Schoenberger.

Estudantes ouvidos pela reportagem concordaram que uma a duas horas por semana é um tempo curto de estudo. “Estudo quatro horas por dia e sinto necessidade de me aprofundar ainda mais”, afirma a aluna do segundo período de Psicologia Maria Cristina Ferreira, que pretende se dedicar à iniciação científica. “Faço só faculdade e consigo me dedicar. Se trabalhasse, estudaria menos.” Dos 50 cursos avaliados, em 30 a maioria dos estudantes disse que trabalha.

Universidades pagas
Grande parte dos estudantes que responderam ao questionário é de universidades privadas, o que influenciou nos resultados, segundo Antônio Lisboa Leitão de Souza, coordenador do grupo de trabalho de política educacional do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN). Ele aponta que 90% da atividade de pesquisa no Brasil é feita em universidades públicas, financiada pelo Estado e com a responsabilidade de repassar à sociedade o investimento feito. De acordo com Souza, as instituições privadas “não oferecem nem priorizam, tampouco valorizam pesquisa e extensão”.

“A expansão desenfreada no fim dos anos 90 no ensino superior foi majoritariamente no setor privado e foi uma expansão meio descontrolada numa esfera privada, que não tem interesse em atividade de pesquisa. Como são instituições que têm fins lucrativos, fizeram da educação uma mercadoria e passaram a vender diplomas simplesmente”, afirma o professor. Ele critica que as instituições privadas não fazem pesquisa e não são cobradas pelo Ministério da Educação por isso.

Para Souza, todos perdem com a falta de pesquisa e extensão. O primeiro “perdedor” seria a sociedade, que receberia um profissional pouco qualificado. Já o aluno, segundo o professor, entra no mercado de trabalho com grau de qualificação aquém do que teve oportunidade e a instituição não se firma como produtora de conhecimento.

A professora aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Bartira Cabral da Silveira Grandi concorda que estudantes, professores e a comunidade são afetados pela falta de pesquisa nas universidades. Para Bartira, os alunos que conseguem bolsas de iniciação científica, que são poucas na opinião dela, adquirem uma formação diferenciada. “Eles têm uma formação mais completa. Acredito que, para aquele aluno que vai fazer mestrado e doutorado, o fato de ter feito iniciação científica o deixa mais preparado.”

Pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedores do Ensino Superior com instituições particulares verificou que entre as universidades 91% disseram atuar em pesquisa e iniciação científica. Entre os centros universitários, 73% apontaram estar engajados nestas práticas. O estuso conclui que “por fazer parte das exigências legais da sua configuração acadêmica” as universidades têm uma estrutura bastante desenvolvida no que se refere à pesquisa e iniciação científica.

Fonte: Gazeta do Povo.____________________________________________________________________
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