Terça-feira, 9 de Setembro de 2008

Mediação online

Por Renê Pimentel*
A incorporação das Tecnologias da Informação e Comunicação na educação vem sendo feita com o sentido de abrir possibilidades para fazer, pensar e conviver que não poderiam ser pensadas sem a presença dessas tecnologias (BONILLA, PRETTO, s.d). Como conseqüência, introduz uma nova (re)organização da visão de mundo e de seus atores, modificam hábitos cotidianos, valores e crenças, constituindo-se em elementos estruturantes das relações sociais, os processos evidenciam um movimento ininterrupto de (re)construção de cultura e conhecimento (BONILLA, 2005).
O papel do professor nesse cenário seria o de um agente de mediação na virtualização inerente à estratégia pedagógica adotada. Logo, a formação dita inclusiva precisará considerar uma visão ampliada de cibercultura, no ciberespaço e na cibercidade (LEMOS, 2004). Ou seja, a inclusão meramente tecnológica não sustenta a cibercidadania. É preciso garantir a inclusão do sujeito como autor e co-autor nos ambientes por onde ele transita de conexão em conexão. É preciso formá-lo para atuar na cibercidade ou nas redes sociais (re)configuradas pelas tecnologias digitais e pela Internet: home banking, votação eletrônica, imposto de renda, cursos, jornal, fóruns de discussão, e diversas atividades de trabalho.


Todavia, a formação para atuação nesse universo online não poderá estar dissociada da atuação do sujeito nas redes presenciais do espaço urbano. Participar, ser cidadão na era digital é mais do que estar conectado e consumir à distância, é atuar no ciberespaço com a perspectiva comunitária e política, sendo cibersujeito.


Neste sentido, Lemos (2004, p.24) afirma que: o capital social pode ser dinamizado a partir de um ‘Portal da Cidade’ com diversas informações sobre Ong’s, implementação de fóruns de debates, livres ou induzidos, por regiões, áreas de chats, propiciar a transparência informativa, disponibilizar serviços online e informações que incentivem a participação política do cidadão; deve-se também incentivar a construção de telecentros em instituições e centros comunitários, com terminais de livre acesso, e-mail grátis para todos, buscando lutar contra a exclusão digital. O objetivo é colocar os grupos sociais e indivíduos em sinergia, utilizando o potencial do ciberespaço como vetor de agregação social.


Assim, a inclusão cibercultural passa, portanto, por mobilizações com esta perspectiva e não meramente pela distribuição da conectividade. Eis aqui o compromisso que se agrega ao papel essencial da educação: formar a cidadania na cibercultura, na sociedade da informação.


Com Pierre Lévy (1993), pode-se verificar que o crescente desinteresse pela sala de aula é fenômeno mundial. Ele lembra que há cinco mil anos a escola está baseada no falar-ditar do mestre. Diz ainda que hoje a principal função do professor não pode mais ser a difusão de conhecimentos que agora é feita de forma mais eficaz pelos novos meios de informação e comunicação. Para esse autor, a sala de aula baseada na transmissão, memorização e prestação de contas não tem mais centralidade na cibercultura.


Martín-Barbero (2000), também atento aos desafios do nosso tempo cibercultural à velha sala de aula, afirma que os professores só sabem raciocinar na transmissão linear separando emissão e recepção. E alerta para o fato de que aumenta o hiato entre a experiência cultural na qual falam os professores e aquela outra na qual aprendem os estudantes.


De fato, a obsolescência do modelo tradicional de ensino escolar vem se agravando na cibercultura. Na sala de aula presencial da educação básica e da universidade prevalece a centralidade do mestre, responsável pela produção e pela transmissão do conhecimento. Na educação a distância via Internet, os sites educacionais, os ambientes virtuais de aprendizagem continuam estáticos, ainda centrados na disponibilização de informações, desprovidos de mecanismos de participação, de criação coletiva, e de aprendizagem construída. Ou seja, na educação online, o paradigma parece permanecer o mesmo do ensino presencial tradicional: o professor-tutor-conteudista é o responsável pela produção e pela difusão do conhecimento, e os estudantes continuam como meros receptores de informação. Logo, a educação continua a ser, mesmo na tela do computador conectado à Internet, uma repetição burocrática ou transmissão unidirecional de conteúdos empacotados.


Os estudantes, cada vez mais imersos na cibercultura, tendem a exigir uma nova contextualização do processo de ensino-aprendizagem. Eles integram a chamada geração digital e estão cada vez menos passivos perante a mensagem recebida. Eles aprenderam com o controle remoto da TV, com o joystick do videogame e agora aprendem com o mouse. Assim eles migram da estática TV tradicional para o computador conectado à Internet e à TV digital. Estão mais conscientes das possibilidades de programá-los e têm a possibilidade de escolha daquilo com o que querem interagir. Evitam acompanhar argumentos lineares que não permitem a sua interferência e lidam facilmente com a linguagem digital e hipertextual. Aprendem que deles depende o gesto instaurador que cria e alimenta a sua experiência comunicacional: interferir, modificar, produzir e partilhar. Essa atitude menos passiva diante da mensagem é o reflexo de sua exigência da nova sala de aula, seja na educação presencial, ou na educação a distância.


Então, é preciso reconhecer: antes havia os apelos de mestres valorosos como Paulo Freire, Vygotsky e tantos outros, enfatizando participação colaborativa, dialógica e multidisciplinaridade como fundamentos da educação, da aprendizagem; hoje há também o apelo da cibercultura questionando oportunamente a velha pedagogia da mera transmissão. Doravante, os programas de formação de professores precisarão enfocar questionamentos inadiáveis. Exemplos: o que é cibercultura? Por que o professor precisa reinventar sua sala de aula? Como situar participação colaborativa, dialógica e multidisciplinaridade na sala de aula, garantindo a formação cidadã no contexto cibercultural? Como utilizar a cibercultura a favor da melhoria da qualidade da educação? Qual será a principal função do professor na cibercultura, uma vez o falar-ditar do mestre passa a não ter mais centralidade? Os olhares para tais possibilidades deverão considerar as percepções de quem efetivamente participa de projetos inovadores, necessários, ousados, que possibilitam a construção do conhecimento coletivo e colaborativo, na contemporaneidade.


Neste contexto, os cursos online recebem muitas críticas no que tange ao processo de ensino-aprendizagem, pela ausência de estratégias pedagógicas consistentes (PIMENTEL, RIOS, SILVA, 2007). Logo, o professor precisa estar atento às formas de interação desenvolvidas nos espaços multireferenciais de aprendizagem, pois não basta enviar e receber mensagens, dar feedback e observar as dinâmicas individuais. O desafio posto aos sujeitos envolvidos é de estarem abertos a processos recursivos nos quais as interações caracterizam-se principalmente por sua construção dinâmica, contínua e contextualizada (PRIMO, 2007).


*Renê Pimentel é colunista do Pesquisador Moderno, conselheiro da Sociedade Brasileira de Pesquisa de Mercado, consultor em estratégia empresarial e professor universitário.
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